Por que rochas continuam a cair do Morro do Cristo mesmo sem novos temporais em Juiz de Fora

  • 20/03/2026
(Foto: Reprodução)
Queda de blocos rochosos atinge fundos de condomínio em Juiz de Fora Após os recentes registros de quedas de blocos no Morro do Cristo, em Juiz de Fora, incluindo o deslizamento que atingiu o fundo de um condomínio na rua Olegário Maciel na última quarta-feira (18), uma dúvida comum entre os moradores é por que as pedras continuam caindo mesmo quando a chuva para? Diferente dos deslizamentos de terra 'comuns', que costumam ocorrer imediatamente durante temporais, a queda de rochas obedece, na maioria das vezes, a uma lógica geológica distinta. Segundo Douglas Cabral, pesquisador do Serviço Geológico do Brasil (SGB), o risco no Morro do Cristo é "dinâmico" e não termina quando a chuva para. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 Zona da Mata no WhatsApp O monumento natural é uma elevação geomorfológica embasada predominantemente por uma rocha chamada granulito. As rochas têm um padrão de fraturamento muito intenso e diverso, o que faz com que haja uma suscetibilidade natural a movimentos de massa do tipo queda e rolamento de blocos. Diferentemente do que se imagina, o morro não é um bloco de pedra maciço e indestrutível. No topo, há uma camada delgada de solo (material terroso) sobre a rocha. Com o excesso de água provocado pelas chuvas do dia 23 de fevereiro, o solo encharcou, perdeu aderência e deslizou. SAIBA MAIS: Morro do Cristo: entenda qual é a formação e por que parte dele desmoronou em Juiz de Fora Deslizamento de terra no Morro do Cristo em Juiz de Fora Pablo Porciuncula/AFP O 'efeito delay': O tempo da rocha é diferente do solo O pesquisador Douglas Cabral explica que o solo satura rapidamente diante de períodos intensos de chuvas, mas a água demora mais para penetrar nas fendas profundas das rochas (o maciço rochoso). "Existe um certo delay (atraso) entre a água cair e saturar o maciço que está abaixo do solo. Isso depende do nível de fraturamento da rocha. Essa infiltração tardia gera uma pressão interna que pode causar o desprendimento dias após o período chuvoso", afirma o pesquisador. Além da água, outros fatores explicam os deslocamentos em períodos de estiagem: Gravidade: Blocos que foram "descalçados" ou tiveram o solo ao redor erodido pela chuva ficam em equilíbrio instável, caindo a qualquer momento. Variação térmica: O calor do sol causa a dilatação da rocha, o que pode gerar pequenas rachaduras e a queda de lascas ou blocos. Ação humana: Cortes verticais feitos na rocha no passado (como os vistos na região da Gruta de Nossa Senhora de Fátima) potencializam a queda natural por removerem o suporte da encosta. Mapeamento: O que dizem os relatórios Vista de Juiz de Fora a partir do Morro do Cristo Prefeitura/Divulgação O risco no Morro do Cristo é classificado como alto e tem sido alvo de estudos constantes pelo Serviço Geológico do Brasil. O risco se divide conforme a composição do terreno: Queda de blocos: O relatório técnico adverte que o processo de queda ou tombamento de blocos pode ocorrer sem aviso prévio, tanto em períodos chuvosos quanto secos. Instabilidade em áreas interditadas: Locais como a Gruta de Nossa Senhora de Fátima são considerados inviáveis para eventos públicos devido à altura do paredão e à ausência de recuo de segurança. Risco de novos deslizamentos: Com o solo ainda saturado, a Defesa Civil mantém o alerta para áreas de encosta onde a vegetação foi removida ou onde existem blocos “em balanço”. Em 2017, o foco foi o mapeamento das áreas de risco direto para as moradias locais. Já em 2024, um novo relatório avaliou o uso turístico da região, alertando para a alta suscetibilidade de queda de blocos, mesmo em períodos sem chuva. Por fim, um estudo de 2025 avaliou a aptidão urbana da cidade em áreas ainda não ocupadas. Douglas Cabral explica que a região do Morro do Cristo não foi avaliada, mas afirmou que a área é de baixíssima viabilidade para novas construções, reforçando que intervenções no local são extremamente complexas e de alto custo. 'A cidade não vai acabar' Apesar do cenário de alerta, o pesquisador tranquilizou a população sobre o medo de um colapso total do morro sobre o Centro. "Não se espera um evento catastrófico que dissolva a cidade inteira. O relevo de Juiz de Fora e da Zona da Mata é naturalmente propenso a movimentos de massa, e o município precisa aprender a conviver com esse risco, monitorando os pontos mais críticos", ponderou. Especialistas recomendam restringir o acesso ao morro em dias de chuva intensa e prolongada, além de monitorar constantemente as fraturas no topo dos paredões. A Defesa Civil de Juiz de Fora mantém o monitoramento das áreas. Contudo, o olhar do morador é fundamental. O pesquisador do SGB lista sinais visuais que indicam que o terreno está se movendo: No terreno: Surgimento de trincas no solo ou fendas na rocha. Na vegetação/estruturas: Árvores, postes ou muros que começam a inclinar (efeito "barriga" no muro). Dentro de casa: Portas ou janelas que passam a empenar ou abrir com dificuldade repentinamente. "Na dúvida, não espere acontecer. Procure a casa de um parente ou um local seguro e acione a Defesa Civil ", reforçou Douglas Cabral. Telefones de Emergência: Defesa Civil: 199 (Atendimento 24h para vistorias e ocorrências de risco). Corpo de Bombeiros: 193 (Emergências que envolvam risco iminente de vida ou desabamento). Polícia Militar: 190 (Para suporte em evacuações de áreas de risco). Morro do Cristo, no centro de Juiz de Fora, é alvo de alertas do Cemaden desde 2017 ANDRE COELHO/EPA/Shutterstock LEIA TAMBÉM: Quem são as vítimas da chuva em Juiz de Fora FOTOS: veja a destruição provocada pela chuva em Juiz de Fora VÍDEOS: veja tudo sobre a Zona da Mata e Campos das Vertentes

FONTE: https://g1.globo.com/mg/zona-da-mata/noticia/2026/03/20/por-que-rochas-continuam-a-cair-do-morro-do-cristo-mesmo-sem-novos-temporais-em-juiz-de-fora.ghtml


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